Carma e a teia da aranha

Trago hoje uma maravilhoso texto extraído do livro 108 contos e parábolas orientais da Monja Coen (agradeço ao Fabiano pelo lindo presente). O texto trata de carma e como o produzimos simplesmente com qualquer ação, seja boa ou má. Coloquei nas imagens algumas correlações com a Astrologia Cármica.

teia

Kantaka e a teia de aranha

Monja Coen

Kantaka era um homem mau. Sem a menor piedade, matava e roubava. Não perdoava nem mesmo filhotes recém-nascidos, tal a sua maldade.

Certo dia, estava passando por uma estrada e viu uma aranha no chão. Pela primeira vez na vida, ele se desviou da aranha e a deixou viver. Ele que, desde criança, arrancava as pernas dos insetos e esmagava quem estivesse à sua frente.

Kantaka morreu, e seu carma prejudicial era tanto que ele foi imediatamente para os reinos de grande sofrimento. Não estava só. Havia um grande número de outros seres sofrendo calores terríveis e frios medonhos. Física e mentalmente perturbados. Assim sofria Kantaka o resultado de todas as suas más ações, quando, de repente, viu uma aranha descendo por um fio de prata. A aranha se aproximou de Kantaka e o convidou a subir pela sua teia.

— Mas é muito fina e frágil – hesitou ele.

— Tente — disse a aranha. — Você não pisou em mim quan do estava caminhando na estrada. Por causa dessa boa ação sou capaz de levá-lo a um local melhor do que este.

Sem mais nada a perder, Kantaka se agarrou àquele finíssimo fio e começou a subir. Estava contente. Ia se livrar dos infernos. Nisso, sentiu o fio tremer. Olhou para baixo e outros seres em sofrimento tentavam se agarrar à teia da aranha. Temendo que o fio não aguentasse outras pessoas, Kantaka começou a chutar a cabeça dos que tentavam subir. E o fio se partiu.

*

lua no mapaHá dois aspectos importantes a considerar nesta história budista antiga. A primeira é sobre a lei da causalidade, também chamada lei do carma. Isto parece comum em muitas tradições espirituais, com nomes diferentes. Para toda ação repetitiva, haverá uma reação. Como marcas de rugas na face. Se sorrirmos sempre de certa maneira, ou franzimos o cenho para forçar o olhar, nossa pele vai criando sulcos. Quanto mais repetirmos as contrações musculares, mais fundos se tornam os sulcos e a tendência é que se repitam e se aprofundem mais e mais. Se quisermos interromper o processo, teremos de fazer um grande esforço para modificar utilização dos músculos da face.

Este é  um exemplo simples para esclarecer os princípios da lei do carma. Carma em si quer dizer ação. Pode ser benéfico, maléfico ou neutro. Pode ser  individual ou coletivo. Pode ser fixo ou não fixo.

SaturnoceuHá muitas possibilidades e também muitos enganos sobre o que é carma. Alguns o consideram um destino fixo e determinado, mas nem sempre é assim. Podemos modificar nosso carma individual mudando a nós mesmos. Podemos modificar o carma coletivo mudando a nós mesmos e influenciando outras pessoas por meio de nosso comportamento, exemplo e ensinamentos.

Podemos produzir carma benéfico e não receber seus efeitos por muito, muito tempo, mas inevitavelmente chegarão. Podemos produzir carma maléfico e também demorar a receber seus efeitos, mas eles virão. Carma do passado, do presente e do futuro não estão separados. O que fazemos pode alterar o passado e o futuro.

O segundo aspecto é sobre a força, o poder do arrependimento. Arrepender-se significa transformar-se, metanoia. Não é apenas pedir desculpas ou receber o perdão de alguém. É mais do que isso: é assumir a responsabilidade e se comprometer a mudar. Esses são os elementos-chave para abrir a porta do carma.

Quando nos arrependemos verdadeiramente, entramos em grande pureza. Mas como é difícil!

Sempre que produzimos carma prejudicial, queremos culpar alguém, alguma situação externa — que pode ir desde a família, amigos, relacionamentos mais próximos até estranhos distantes, como os governantes deste ou de outros países. Podemos culpar Buda. Alguns monoteístas culpam até mesmo Deus. Entretanto, assumir a nossa responsabilidade pelos nossos erros e falhas é o único caminho.

No budismo, as causas de nosso carma prejudicial são a ganância, a raiva e a ignorância — três venenos que podem se misturar causando outras emoções e sentimentos prejudiciais a nós e à vida de outros seres. Portanto, é preciso estar atento e não se deixar envenenar. Usar os antídotos da doação, da compaixão e da sabedoria para evitar o carma prejudicial e produzir o carma benéfico.

Kantaka, da história budista antiga, é vítima de si mesmo. Estaria no mundo do sofrimento enquanto seu carma prejudicial ainda existisse. No momento em que fez uma boa ação, poderia se abrir para ele a possibilidade do fim do sofrimento. Entretanto, ainda não era capaz de querer o bem dos outros seres. Estava tão centrado em si mesmo, que perdeu a oportunidade de se salvar.

O contrário também pode acontecer. Alguém que tenha feito boas ações e vá para os reinos celestiais, onde nada falta e todos são felizes. Entretanto, se quando estiver nesse reino um pequeno sentimento de ciúme ou inveja surgir, imediatamente perderá os céus.

A lei é inexorável e impessoal. Quem fizer o bem receberá o bem. Quem fizer o mal receberá o mal. Se houver arrependimento haverá um abrandamento. Se houver sabedoria, haverá libertação.

 

 

spacer

Leave a reply